Uma garotinha que viu em seu cansaço continuo uma esperança. Essa,volta e meia desaparecia, deixando-a imersa em seu vazio novamente. Não podia ouvir mais tantos telefones que tintilavam um brado impetuoso de impaciência e ordem a quem se achasse mais próximo deles.
Via todos os olhares debaixo do teto em que se encontrava. Via pessoas que chegavam e que saíam.
Tinha tudo. Tinha muitos. Tinha uma família à sua volta,e , por incrível que pareça, havia várias pessoas ao seu redor. Mas, de nada adiantava se eram apenas vozes distantes, borrões de tinta e sua maior alegria estava em ouvir seus amigos em sua mente. Esses eram reais, estavam presentes em sua ilusão. Estavam presentes.
Com o tempo, já não se sentia bem com os rostos que visualizava ao seu redor. Eles... Eram barulhentos e, gritavam. Em sua mente, nenhum de seus amigos havia se quer aumentado o tom de voz. Nesse momento, estava confusa. Típica observadora, viu a todos e esqueceu de si mesma. Sentia-se extremamente desconfortável quando necessitava de ficar em um ambiente onde havia várias pessoas.Nada dizia.Queria gritar. Nada sentia, queria apenas afastar qualquer coisa que se aproximasse.
O tempo envelhecia a cada segundo, e a cada instante deste, mais obrigações onde sua voz ficava para trás entre uma meia-audição e o telefone que o receptor de sua conversa atendera.
Se por alguma vez pensou em agir sem pensar, ou, ignorar o fato de já ter pensado, foi aquele momento. Queria incessantemente estilhaçar todos os telefones que encontrasse inclusive e principalmente os celulares. Estilhaçar aquilo que roubava seu tempo com quem mais queria ser ouvida e ouvir uma palavra a seu respeito.Ao invés disso, juntou os pedaços que estilhaçados estavam apenas em sua alma e os escondeu, para que as feridas se cicatrizassem à sombra.
Infelizmente, foi se tornando ausente de tudo, inclusive de si mesma para não ter que olhar a ferida que não cicatrizava.Resolveu esperar.Essa espera a fez fria com tudo e todos.
Séria garotinha que ainda esperava para um diálogo.
Essa noite.
Ela pegou seu urso, o abraçou com a mais terna e sincera lágrima que havia para lavar toda a ilusão. No urso, achou uma força, viu que no futuro, quando fosse grande, poderia fazer mais por amigos, se preciso fosse daria a eles ursos também. Essa noite, a garotinha foi com seu urso até o quarto de seus pais, onde sua mãe deitada e exausta pelo cansaço de um dia rotineiro entraria em um sono profundo em instantes. Sua mãe, que feliz estava por ter posto seu caçula para dormir, e que aguardava seu esposo, virou sua voz à pequena e por este momento a garotinha sentiu paz, ouviu e foi ouvida,não havia telefones, campainhas ou pessoas para atrapalhar. Saiu vitoriosa ao ver aquele sorriso doce e maternal estampado na face cansada de sua heroína, mas que, segundos depois adormeceria para recomeçar sua jornada.


